quinta-feira, 9 de julho de 2009

Dama da noite

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Liberta surge a noite
Sobre o sol afogado, apagado.

Me afaga e me bate.
Meu nome clama e grita:
Anseia em mim companhia.

Sonho de preto manchado.
Me sacode, sufoca
E arranca do sono.

Sou ferido, desejado.
Em trevas, solidão
Faz de mim o seu trono.

Se despe, me abraça
E me lambe o pescoço.

Da pele, o calor
Pulsante em silêncio
Liquefeito, ela come.

Em saciada frieza
Meu corpo deixa
Empalidecida fome.

Enfim, me liberta a dama
Sob o sol, gelado, apagado.
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quarta-feira, 10 de junho de 2009

Vinum acre


.............O saca-rolhas abriu a garrafa outrora selada. Do gargalo, o aroma frutado da bebida emergia em carícias às suas narinas. Derramou o púrpura suco das uvas até a borda dos cálices, afogando todas as aflições no tinto sangue de Merlot e ocultando sob si toda angústia. Esbanjava em cânticos e danças e transbordava seus lábios em júbilo. Deleitou-se perdidamente no macio sabor do vinho, permitindo-se ser embalado pela distração da embriaguês. Deixou todos os barris abertos, esquecendo-se dos dias que se sucederiam. Hoje, restava apenas a acidez âmbar do vinagre para a sede de sua tristeza saciar.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Bossa 'N Roll

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Quisera eu iluminar-te
Da sombra trazer o fulgor
Colher da terra o aroma
O manto, essência compor
Teu Cheiro, perfume de flor
Em canto tua boca brotou

E o batom que te beija,
Com minha boca apagar...

Vou soprar no ouvido a volúpia
E sentir pelo corpo arrepiar.

Pele desnuda em desejo
Vem sangue meu despertar.

Em ti pintar a mordida
Tua carne quero molhada,
Alma em mim derretida.

De tua garganta ouvir um gemido
E em teu gozo verás meu sorriso.
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segunda-feira, 4 de maio de 2009

Capuccino

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Desejou
Lá estar
Um dia.

E agora?

Tremula.
Hesita.
Cambaleia.

Então, toca.

Não calor
Exala tal
Como ouvira.

Mas prova.

E o sabor
Nem pra mal
Sentir há.

Como poderia?

Nem cacau
Café, canela
Ou chantilly.

Água fria.

Era o que
Não eu
Queria pedir.

Desperdício?

Num gole vira
Mas no fim
Vomita.

Sim. E não.

domingo, 19 de abril de 2009

Rédea

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Fugiu da sombra da toca
Abriu as cortinas
E ao mundo se mostra.

Saiu da beira do tudo
E hoje decidiu
Ser a dona de seu mundo.

Não mais viver à deriva
Nem ocultar-se nas trevas
Ou chorar como menina.

Gira o leme como quer
E a sua nau conduzir
Ao norte, sul, inferno até.

Andorinha saiu a voar.
Tomou um sopro de vento
E alçou rumo por sobre o mar.



quinta-feira, 9 de abril de 2009

Desconstrução

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A casa ficou torta, meu bem.
Ontem passou um vendaval

A Chuva furou
E o vento arrancou
O nosso teto.

Eu bem que tentei consertar,
Mas acredite, não vai dar.

A porta emperrou,
O vidro trincou
E a janela quebrada.

Não adianta nem chorar
Que não dá pra endireitar.

As colunas `tão bambas,
O reboco rachado
E o chão amarrotado.

As paredes já não seguram os quadros
E o jardim está despenteado.

Vou-me embora apressado
Antes que em mim caia
O restante do telhado.









quinta-feira, 2 de abril de 2009

Doce



A campainha tocou? Não. Ele arrombou a porta. Ou talvez eu a tenha deixado destrancada. Não me recordo muito bem. Apenas me lembro que eu estava um tanto recluso. Tentava esquecer a bagunça que assolava o mundo naqueles dias. Na bandeja, trazia uma folha riscada com a minha letra. Mas eu não havia escrito carta alguma. E sobre o papel, o doce. Como ele poderia saber? Um blefe, talvez. Meu olhar furtivo me denuncia. E em seu rosto, brota aquele sutil ar de riso. Logo me ofereceu. No entanto, nem um dedo ousa se mexer. Uns passos à frente, ele se aproxima juntamente com aquele cheiro que dá água na boca. Se delicia, pode pegar. Permaneci imóvel, todavia. Não satisfeito, põe aquilo a meio centimetro de minhas narinas. Eu apenas temia. É teu. Deixou o prato sobre a mesa e deu de costas. Nem penso. O impulso fez sentir-me um predador. Foi numa bocada só. Como se atreve? Mas... Não! Você nunca irá entender. Vou-me embora. E em meus manjares nunca mais hás de te deleitar.